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A importância da alimentação e do processo de produção de cada alimento no cotidiano


O professor titular da UFRGS e colunista do blog Food Agenda, Sergio Vieira, fez uma importante reflexão sobre o assunto.

O professor titular da UFRGS e colunista do blog Food Agenda, Sergio Vieira fez uma importante reflexão sobre a alimentação do ser humano e a preocupação cada vez maior com a qualidade e o processo de produção desse alimento que chega até a mesa da população, reproduzimos aqui no nosso site o texto dele, pois consideramos muito importante: 

Se você chegou até aqui espero que aproveite a leitura e que possamos usar este espaço para dialogar sobre aquilo que nos alimenta. A minha proposta para este blog é simples no objetivo, mas complexa na sua construção. A simplicidade diz respeito ao que todos querem dos alimentos: nutrir o corpo e sentir prazer. Já os processos envolvidos na produção dos alimentos, os componentes dos alimentos (aqueles que fazem bem e os que fazem mal), as limitações genéticas para aproveitar alimentos (exemplos modernos são as intolerâncias ao glúten e a lactose), os antinutrientes, os excessos e etc são conteúdos complexos e que demandam um pouco de tempo na busca de entendimentos e orientação. O que existe de verdade sobre estes temas e o que é factoide?

Na primeira metade do século 20 a vida média do Brasileiro não chegava aos 40 anos! Por outro lado, foram necessários milhares de anos para a população humana chegar a um bilhão de habitantes, número atingido no início do século 20. Nos 100 anos seguintes chegamos a 6 bilhões e, já neste início de século 21 batemos em 7 bilhões. Aos insetos que evoluem desta forma chamamos de “praga”... Invadimos o mundo e estamos permanentemente nos ensaiando para invadir o universo... A trajetória humana de crescimento populacional foi produzida por alguns fatores importantes, hoje de conhecimento óbvio, tais como a universalização dos princípios básicos de saúde e higiene e da descoberta de medicamentos que curam doenças que nos vitimavam às pencas (notavelmente os antibióticos). Mas é impossível imaginar tal proliferação do ser humano sem um paralelo estreito com a disponibilidade de alimentos.

Na idade média o consumo de energia de origem alimentar foi um grande limitador da expansão humana das classes populares, pois em sendo limitada a produção agrícola devido à escassez de recursos como fertilizantes minerais e defensivos agrícolas e sendo a maior parte da produção destinada ao consumo desproporcional da nobreza, o alimento não estava disponível em quantidades suficientes para manter a reprodução e a vida!

A saúde entra pela boca! De verdade, pelo menos boa parte, não podemos esquecer de outros fatores importantes que fazem parte de nosso modo de vida, o sedentarismo principalmente. De qualquer forma, os alimentos podem fazer bem ou mal a saúde, é fato. Por outro lado, o empirismo com que tratamos as relações de causa e consequência entre alimento e saúde nos remete à falta de conexões razoáveis e produz preocupações universais com o que se come.

Meu diagnóstico pessoal: a urbanização da população mundial (menos de 15% dos brasileiros vivem hoje no meio rural, nos EUA não chegam a 3%!) produziu um afastamento dos processos de produção dos alimentos que consumimos. Se no passado recente, no máximo há 3 gerações, todos sabiam plantar, colher, ordenhar, etc... hoje estas atividades estão nas mãos de minorias de agricultores, os demais não tem absolutamente nenhum contato. Este distanciamento é a causa principal da desconfiança relativa à qualidade dos alimentos atualmente. Nos deixa confusos e permanentemente preocupados com o que comemos.

Alimento ou comida? Os dois são a mesma coisa? Para que comemos e o que são os nutrientes que estão dentro dos alimentos? E a cadeia alimentar? Onde estamos como animais? O que devemos comer para respeitar nossa biologia? É verdade que o que comemos hoje é muito pior do que no tempo de nossos avós? Afinal, o que foi que fizemos com os vegetais, a carne o leite, os ovos? As transformações tecnológicas dos processos de produção agrícolas afetam a qualidade dos alimentos? Afinal o desenvolvimento tecnológico na produção de alimentos tem uma correspondência com a evolução tecnológica vista nas outras áreas? Devemos sentir culpa de comer carne?

Bem, nem toda comida alimenta da mesma forma, mas genericamente pode-se dizer que comida e alimento têm definições bastante próximas. Já, com relação ao nosso status como animais, de verdade somos onívoros, o que significa termos capacidade de consumir, digerir, absorver e metabolizar praticamente todos alimentos, sejam de origem vegetal ou animal. Somos também heterótrofos, ou seja, não temos a capacidade de sintetizar os alimentos que precisamos, tais como as plantas ou microrganismos e, portanto, necessitamos comê-los para manter a vida. De fato, termos tido capacidade de adaptação a comer qualquer coisa tem sido o fator mais importante para garantir a sobrevivência da humanidade, mas principalmente para dar suporte à invasão e colonização da terra pelo homem. Mesmo os lugares mais inóspitos da terra possuem povoações humanas e isto só é possível pela nossa grande capacidade de adaptação alimentar.
Fato: compartilhar a alimentação é a atividade social mais importante do homem. Achados arqueológicos demonstram que este comportamento existe em nossa espécie há milhares de anos. Então, comer não é apenas um ato de sobrevivência, mas também um processo de relacionamento humano!

Nosso passado caçador-coletor teve milhares de anos para consolidar o DNA que trazemos e, que, ainda comanda os processos de utilização de alimentos por nós uma vez que este DNA segue majoritariamente conservado. A capacidade de o homem aproveitar o que come e de seu corpo sentir-se bem ou mal com isto é determinada por esta gravação genética composta há milhares de anos. O respeito aos princípios determinados pelo DNA é um bom começo em direção a uma alimentação adequada.

A comunicação com a sociedade é um caminho importante para dividir a história de maior sucesso do Brasil, que é a produção de alimentos. Esta história tem muitos participantes, mas não parece receber um tratamento em nível racional adequado. Entendo que, como profissional atuante nesta área e em permanente atenção às diversas mídias públicas, tenho a obrigação de me expor. De que outra maneira poderia ampliar minha clareza sobre o sentimento do brasileiro a respeito do que come e, especialmente, de onde vem o que comemos?

Você também pode visualizar esse texto diretamente no blog do Prof. Dr. Sérgio Vieira através do link: foodagenda.com.br

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